Ao ler o relato de Tiago Castro — “sabia que estava mal, mas pensava que era bom a disfarçar” — somos convidados a encarar a distância entre o que mostramos e o que sentimos. A máscara social não é apenas uma máscara; é uma estratégia de sobrevivência, muitas vezes alimentada pela pressão por resultados, pela ideia de que a saúde mental é um luxo que não podemos ofertar a quem lidera e quem é liderado. A experiência dele revela uma verdade comum: o custo de manter uma fachada pode superar o custo da vulnerabilidade, especialmente quando a dor se instala no silêncio.
Essa tensão entre controle emocional e necessidade de ajuda não é exclusiva de figuras públicas. Ela atravessa equipes, empresas e famílias. A ciência, de modo acessível, nos lembra que esconder o sofrimento eleva o estresse, aumenta a carga cognitiva e pode atrasar o acesso a apoio profissional, alimentando um ciclo que afeta não apenas o bem-estar do indivíduo, mas o desempenho e a qualidade das relações no ambiente de trabalho. O que parece ser uma questão pessoal revela, na verdade, uma dinâmica organizacional: quando a cultura institucional normaliza a dor não reconhecida, todos perdem parte de sua energia criativa e de propósito.
Que lições podemos extrair desse relato para 2026? Primeiro, vulnerabilidade não diminui competência; ela amplia a capacidade de liderança quando acompanhada de cuidado consigo e com os outros. Em segundo lugar, líderes têm a responsabilidade de criar ambientes onde pedir ajuda é visto como sinal de coragem, não de fraqueza. Em terceiro lugar, a autenticidade exige prática: conversas regulares sobre bem-estar, políticas de saúde mental acessíveis e estruturas que facilitem o acesso a apoio qualificado.
No centro dessa reflexão está a ideia de que cuidar da mente é parte essencial da prosperidade individual e coletiva. Em um ecossistema onde trabalho remoto e presencial coabitam, a gestão da saúde mental se torna uma vantagem competitiva: equipes que se sentem seguras para falar de cansaço tendem a colaborar melhor, inovar com mais leveza e permanecer juntas por mais tempo. Assim, a depressão — ou qualquer sofrimento semelhante — não é apenas um tema de saúde; é uma pauta de estratégia humana, cuja prioridade deve ser reconhecida por quem define caminhos, metas e cultura.
Como transformar essa lição em prática diária? Comece com rituais simples de cuidado, como check-ins breves e sem julgamentos, que deem espaço para a fala sem exigir soluções imediatas. Treine líderes para reconhecer sinais de sofrimento, oferecendo caminhos claros para apoio profissional, seja via convênios, terapia ou coaching. Promova metas realistas, pausas estratégicas e uma comunicação que conecte tarefas a um propósito maior. Compartilhe histórias de vulnerabilidade com responsabilidade, para que o ambiente da organização seja, aos poucos, menos temeroso diante da dor humana e mais firme na promessa de cuidado e crescimento conjunto.
O que Tiago Castro nos ensina, enfim, é que a coragem não é a ausência de dor, mas a decisão de transformar esse conhecimento em cuidado ativo — consigo mesmo e com aqueles que caminham ao nosso lado. Em 2026, essa decisão pode ser a diferença entre uma liderança que apenas perfuma resultados e uma liderança que gera significado duradouro para pessoas, equipes e organizações.
🔍 Perspectiva baseada na notícia: Tiago Castro e a depressão. "Sabia que estava mal, mas pensava que era bom a disfarçar" — Observador
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