Há uma explicação neurobiológica para a saudade que não cessa: o transtorno do luto prolongado (TLP) revela como o cérebro pode reconfigurar caminhos de recompensa após uma perda. Uma revisão publicada na Trends in Neurosciences destaca que interrupções nesses circuitos ajudam a entender por que, para alguns, a dor persiste por meses ou até anos. No TLP, a experiência do luto é semelhante ao luto comum, com a diferença de que, em cerca de 5% das pessoas enlutadas, o sentimento permanece inalterado seis meses após a perda, como se a vida perdesse o seu significado. A neurobiologia entra em cena para explicar esse entrave: o luto não é apenas emoção, mas um estado que altera a forma como o cérebro antecipa recompensas e regula o medo.
“O transtorno do luto prolongado é uma espécie de ‘novato’ nos diagnósticos psiquiátricos”, afirma Richard Bryant, autor principal do estudo e pesquisador especializado em traumas da Universidade de New South Wales, na Austrália. Para entender o quadro, pesquisadores recorreram à neuroimagem, pedindo a enlutados que recordassem lembranças ou manuseassem objetos do falecido durante as varreduras cerebrais. O TLP foi repetidamente associado a mudanças nos circuitos de recompensa, especialmente envolvendo o núcleo accumbens e o córtex orbitofrontal, bem como regiões ligadas ao medo e à percepção corporal.
No núcleo accumbens, que libera dopamina na antecipação ou obtenção de recompensas, a ativação persiste quando alguém vê fotos ou relembra o falecido. Esse “anseio” por uma presença que não pode mais ser obtida prende o indivíduo em um ciclo de dor. O córtex orbitofrontal, por sua vez, orienta decisões com base no valor das coisas; se não atualiza a informação de que a pessoa não está mais disponível, a sensação de que a vida perdeu o sentido pode endurecer.
A amígdala, centro da resposta de luta ou fuga, fica em um estado de hipervigilância no TLP: a perda de um vínculo é interpretada como ameaça biológica, o que explica a ansiedade constante e a dificuldade de relaxar. Já a ínsula, crucial à interocepção, transforma a saudade em dor física ao acionar sinais internos do corpo quando a pessoa vê uma foto do ente querido. Alguns padrões neurais observados se sobrepõem a depressão e ao transtorno de estresse pós-traumático, condições que compartilham ruminação e sofrimento emocional. Mesmo assim, diz Bryant, há tratamentos que podem resolver o problema.
Isolamento social, por exemplo, pode acionar regiões associadas à dor física. Essa tríade entre emoção, percepção corporal e redes de recompensa sugere que o luto persistente não é apenas de ordem emocional, mas de uma reorganização neural que exige respostas integradas de cuidado. A notícia da ciência não vem para rotular, mas para iluminar caminhos possíveis de saída, especialmente quando a liderança assume a responsabilidade de criar ambientes que favoreçam a recuperação emocional.
E como traduzir esse conhecimento para o cotidiano de empresas, clínicas e equipes? Primeiro, reconhecer sinais de luto prolongado envolve observar não apenas frases de tristeza, mas comportamentos como isolamento prolongado, retraimento em atividades socialmente significativas e dificuldades consistentes em retomar projetos. Segundo, oferecer apoio estruturado — horários de contato, reuniões com propósito claro, e recursos terapêuticos acessíveis — pode reduzir o peso desta condição sem estigmatizar quem sofre. Terceiro, promover estratégias de coping e comunicação empática com equipes e clientes, em linguagem simples e sem apelo performativo, ajuda a manter vínculos saudáveis enquanto se cuidam feridas pessoais.
A liderança tem um papel central: criar ambientes que reconheçam a dor humana, sem exigir que a dor seja rapidamente substituída por produtividade. Essa postura não é apenas moral, é pragmática para a saúde organizacional a médio prazo. Ela se conecta à Alma do Terapeuta — autocuidado, transformação e compaixão — e à Alma do Buscador — propósito e sentido que orientam escolhas coletivas, mesmo diante de perdas. Em 2026, a tendência é justamente construir casas organizacionais onde o cuidado não atrasa a entrega, mas acelera relações mais autênticas com equipes e clientes.
A riqueza da neurociência não nos entrega uma receita milagrosa, mas oferece clareza suficiente para transformar o modo como vivemos a dor: não para apagá-la, mas para inserir significado, apoio e crescimento dentro dela. O desafio é coletivo: reconhecer a dor, estruturar suporte, cultivar estratégias de resiliência e manter a comunicação aberta, com cuidado e honestidade, em cada ponto de contato de uma organização com pessoas que carregam histórias de perda.
O que você pode fazer hoje para começar a aplicar esse olhar sensível na sua equipe? Pense em uma ação simples que conecte cuidado, propósito e clareza — e implemente já neste ciclo.
🔍 Perspectiva baseada na notícia: Por que alguns cérebros não conseguem superar a perda
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