Em uma reportagem que cruza ciência, consumo e marketing, a febre pela proteína revela um dilema humano: até que ponto a busca pelo corpo ideal precisa passar pela lente de uma indústria que promove suplementos como solução rápida? A matéria do Fantástico mostra como a proteína se tornou um ingrediente onipresente — presente em leites, pães, iogurtes, barras, biscoitos e até bolos — e como esse entusiasmo pode desencadear efeitos indesejados quando o equilíbrio entre alimentação natural e produtos industrializados é atropelado pela pressa de resultados.
“Se a gente consome proteína em excesso, a gente não vai aproveitar essa proteína para finalidade dela, que seria a constituição corporal, formação de massa muscular. Isso vai ser armazenado de alguma forma no organismo e pode virar gordura corporal”, aponta a nutricionista Lara Natacci.
Especialistas ressaltam que a proteína é essencial para músculos, tecidos, hormônios e enzimas, mas as quantidades variam de pessoa para pessoa. Em termos globais, há divergência entre diretrizes internacionais: a nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos sugere aumentar a ingestão de proteína animal, enquanto a Organização Mundial da Saúde indica uma quantidade menor. Segundo Sophie Deram, nutricionista e pesquisadora da USP, os EUA recomendam 1,2 a 1,6 gramas de proteína por quilo, enquanto a OMS recomenda 0,8 a 1,2 gramas por quilo.
A ideia de que “mais proteína é igual a mais músculo” é um mito que perde força quando olhamos para o corpo humano: o organismo só aproveita parte do que chega com cada refeição — em torno de 25 a 30 gramas — e o excedente pode ser armazenado como gordura. Para a maioria das pessoas, a recomendação básica fica em torno de 1 grama de proteína por quilo de peso por dia, distribuída ao longo das refeições. Quem pratica musculação intensa, idosos ou pessoas em diques de emagrecimento podem precisar de mais, porém com orientação.
O risco se acentua quando se parte para dietas hiperproteicas sem avaliação médica, especialmente para indivíduos com função renal já comprometida. Nesse cenário, o consumo elevado de proteína pode acelerar a perda de funcionamento renal. Dois exames simples — creatinina e urina — podem detectar alterações precocemente, antes que os sintomas avancem.
A reportagem também conta a história de Tiago Guzoni, ex-atleta de 30 anos, que elevou drasticamente a ingestão de proteína na busca por massa muscular. Entre shakes, hipercalóricos e pratos proteicos, ele acabou apresentando dores de cabeça durante os treinos e, ao longo de dois anos, viu a função renal cair para 50%. Em 2024, precisou de um transplante de rim. Hoje, com acompanhamento nutricional, ele mantém uma dieta equilibrada que controla a ingestão de proteínas e carboidratos, reconhecendo os exageros do passado como lições sobre autocontrole e cuidado com o corpo.
A investigação também visitou um laboratório da USP que mostra como funciona a produção do whey protein. Do soro do leite à secagem, o pó passa por um processo que preserva o valor nutricional, mas, na prática, raramente é consumido puro: a indústria adiciona adoçantes, aromatizantes e espessantes. Mesmo assim, os especialistas afirmam que o suplemento não é considerado ultraprocessado. Ao comparar barrinhas, whey e cookies com alimentos como ovos, frango e feijão, percebe-se que, do ponto de vista proteico, muitos produtos se equivalem aos alimentos naturais. Uma barrinha pode ter entre 12 e 15 gramas de proteína, enquanto dois ovos somam aproximadamente 13 gramas. Contudo, os alimentos in natura oferecem vitaminas, minerais e fibras que nem sempre aparecem nos industrializados, que costumam ter gordura saturada maior e menos nutrientes.
“A barrinha de proteína, ela vem com gordura saturada. Muitas delas tem bastante gordura saturada, então não é interessante a gente consumir frequentemente”, alerta Filipe Bragança, conselheiro da BrasNutri.
Apesar da explosão de produtos proteicos, o recado é claro entre nutricionistas: para a maioria, comer comida de verdade — arroz, feijão, carne, salada — já satisfaz a necessidade diária de proteína sem depender de suplementos. A mensagem é simples, mas poderosa: equilíbrio, diversidade e qualidade aparecem como os pilares que sustentam saúde a longo prazo, sem depender de atalhos.
Neste cenário, emerge uma discussão ética relevante para o ecossistema de wellness: como manter honestidade na promoção de produtos de bem-estar e educar o público sobre escolhas saudáveis? A resposta não está apenas em rótulos alinhados e promessas contidas, mas em reconhecer que o corpo humano opera como um sistema integrativo. A proteína é necessária, mas não pode se tornar a solução mágica para todos os dilemas estéticos — nem deve ser instrumentalizada para vender mais. Em 2026, a reflexão é sobre branding responsável, comunicação com clareza e cuidado com dados de saúde que afetam a vida real das pessoas.
🔍 Perspectiva baseada na notícia: A febre da proteína: quando a busca pelo corpo perfeito pode até virar um transplante de rim
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