A meritocracia, tão presente nas narrativas de sucesso, revela-se mais complexa quando olhamos com o prisma de quem ainda hoje depende do apoio familiar para trilhar caminhos de educação, moradia e entrada no mercado de trabalho. A autora britânica Eliza Filby, em Inheritocracy, aponta que gerações mais novas — especialmente aquelas que cresceram depois da crise de 2008 — costumam ter mais chance de comprar uma casa com a ajuda dos pais do que com a renda obtida pelo próprio trabalho. Em termos práticos, o que chamamos de “banco da mamãe e do papai” funciona como uma rede de segurança que, para muitos jovens, substituiu parte da estabilidade que o emprego deveria oferecer.
"Você percebe que, agora, seus empregados com menos de 45 anos têm mais possibilidade de comprar uma casa sendo leais aos seus pais e não ao seu chefe?"
Filby descreve um fenômeno que atravessa classes sociais: a solidariedade familiar cresce porque o Estado se tornou menos capaz de prover estabilidade em áreas centrais da vida adulta — moradia, educação, cuidado de crianças e saúde. A consequência é uma configuração de oportunidades em que o acesso ao patrimônio familiar se torna tão decisivo quanto, ou até mais determinante que, o próprio mérito. A geração X e os millennials vivem essa realidade de perto, com projeção para a geração Z e a geração Alpha.
Essa leitura desafia muitos pressupostos que costumamos manter no ambiente corporativo: a ideia de que basta ser diligente, estudar e cumprir trajetórias padrão para alcançar prosperidade. O conceito de meritocracia, que nasceu como advertência do sociólogo Michael Young, acabou sendo internalizado como elogio ao sucesso conquistado pelo esforço individual. Filby nos lembra que o mérito não é apenas uma nota ou um título; ele se transforma quando a base de oportunidades vem de heranças, redes de apoio e acesso a recursos que não dependem da capacidade de produção de cada um.
"A herançocracia é uma sociedade na qual o importante não é o quanto você ganha, nem o que você aprendeu, mas sim se você tem acesso ao banco da mamãe e do papai, que é o que define suas oportunidades, sua rede de segurança e sua plataforma para a vida adulta."
Para o leitor contemporâneo, isso significa que a estabilidade do ponto de vista econômico não está mais apenas na renda do trabalho, mas na soma de redes, vínculos e ativos herdados. E não é uma exclusividade da elite: há uma tendência de que o apoio seja mais difuso, alcançando famílias de diferentes faixas de renda, mas com impactos semelhantes: quando o trabalho não entrega com igual intensidade as condições de uma vida que inclua casa, educação de qualidade e cuidado familiar, as redes privadas ganham peso.
Essa leitura também ilumina impactos no âmbito das relações pessoais e escolhas de vida. A descrição de Filby sobre a formação de casais sugere que a disponibilidade de patrimônio familiar influencia, de modo cada vez mais determinante, com quem as pessoas decidem compartilhar o futuro. Em muitos contextos, a compatibilidade financeira — antes uma preocupação da classe média — deixa de ser apenas uma preferência individual para tornar-se um critério que molda a dinâmica de relacionamentos.
Essa constatação tem implicações diretas para quem lidera equipes. Em termos de gestão de pessoas, o desafio é claro: como manter equidade em ecossistemas de negócios onde o pulso da prosperidade está, historicamente, entrelaçado com heranças? A resposta não passa apenas por reconhecer o problema, mas por agir de forma deliberada para democratizar oportunidades.
Políticas de recrutamento, desenvolvimento e remuneração precisam ser repensadas para evitar dependência de redes familiares. Investir em treino, mentoria, alianças com comunidades marginalizadas e programas de educação financeira para equipes torna-se uma prática de governança que conversa com valores de prosperidade compartilhada. Em vez de sustentar a ideia de que o mérito é apenas o resultado de diplomas e certificados, é fundamental construir caminhos de formação contínua, avaliação de competências e oportunidades transparentes.
Essa perspectiva é compatível com uma visão de liderança responsável que vê a prosperidade como um processo coletivo: não apenas como benefício individual, mas como construção de uma cultura organizacional que favorece a inclusão, a responsabilidade e a sustentabilidade. O tema ecoa com a Alma do Empresário — liderança que busca prosperidade consciente e relações de longo prazo com comunidades e talentos — e com a Alma do Buscador — a busca por sentido, justiça e autenticidade no que fazemos.
Ao adotar essa lente, o que se percebe é que culturas organizacionais fortes não apenas impedem que a prosperidade se torne uma rede de proteção familiar móvel, mas também criam condições para que a meritocracia seja mais do que uma narrativa; seja um conjunto de oportunidades reais para quem entra no mercado com menos dependência de contextos familiares. Pensar nisso, neste momento, é reconhecer que o equilíbrio entre prosperidade econômica e responsabilidade social não é apenas desejável, é estratégico para quem quer navegar com clareza em 2026.
As dimensões do Capitalismo Consciente e da Prosperidade, aliadas à compreensão sistêmica de como mensagens, políticas e estruturas organizacionais se conectam, apontam para caminhos práticos: cultivar uma cultura de aprendizado contínuo, ampliar redes de mentoria, promover parcerias com comunidades, revisar práticas de remuneração e assegurar que a educação financeira seja parte integrante do desenvolvimento de todos os colaboradores.
🔍 Perspectiva baseada na notícia: Herança que Gera Fortuna: o Efeito Herançocracia
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