A notícia chega como um convite para repensar o cuidado da mente: a prática regular de atividade física pode, de fato, rivalizar com remédios e psicoterapia no tratamento de depressão e ansiedade. Trata-se de uma das maiores revisões já realizadas sobre o tema, reunindo dados de quase 80 mil pessoas em 63 estudos que, agregados, somam 81 metanálises e 79.551 participantes. O objetivo dos autores, um grupo de cientistas australianos, foi medir com mais precisão o impacto do exercício sobre a saúde mental, filtrando para que o efeito não fosse confundido com outros fatores de saúde física.
Do ponto de vista dos números, o que se vê é consistência: o exercício reduziu sintomas em todas as faixas etárias e, em alguns cenários, superou tratamentos tradicionais. Para que isso aconteça, o estudo ressalta que o exercício não é apenas um hábito saudável, mas uma intervenção capaz de alterar a química e a estrutura do cérebro, ao mesmo tempo em que melhora o bem-estar emocional por meio da interação social. Como descreve Helder Picarelli, médico do ICESP, a prática estruturada funciona quase como um guia: a pessoa não precisa decidir o tempo todo, a rotina já está dada, o que favorece a regularidade e pode favorecer neuroplasticidade pré-frontal.
Em termos de mecanismos, a relação entre medicamentos e exercício passa por vias semelhantes, porém acionadas por caminhos distintos. Medicamentos atuam por vias químicas específicas; o exercício mobiliza redes cerebrais por vias fisiológicas amplas, incluindo fatores metabólicos, inflamatórios, hormonais e comportamentais. O resultado é um equilíbrio entre humor, motivação e prazer, com o pulmão da neurociência não apenas explicando, mas validando caminhos práticos de adesão.
Qual exercício funciona melhor em cada caso?
- Não existe fórmula única: o tipo e a intensidade variam conforme o objetivo e o contexto. Para depressão, os melhores resultados ocorreram com exercícios aeróbicos realizados em grupo, com supervisão profissional. O componente social — pertencimento e apoio — aparece como elemento crucial para potencializar o efeito antidepressivo.
- Para ansiedade, programas de curta duração (até oito semanas) e de baixa intensidade mostraram maior eficácia na redução rápida dos sintomas.
“O estudo não prova o porquê dos exercícios aeróbicos terem maior impacto na depressão; ele aponta uma associação, não uma causalidade. Mas há hipóteses plausíveis: sono mais estável, energia elevada e humor mais estável, aliadas à adesão facilitada a atividades como caminhada, corrida ou ciclismo”, comenta Diego Munhoz, médico ortopedista formado pela USP.
Quem mais se beneficia?
- Embora haja benefício em todas as idades, dois grupos se destacam: jovens adultos (18 a 30 anos), ainda no início de muitos transtornos mentais, e mulheres no pós-parto, para quem o exercício foi classificado como estratégia de baixo risco e alto benefício para a saúde mental materna.
Exercícios físicos e o vínculo social
A eficácia do exercício não é apenas psicológica. Biologicamente, ele estimula a produção de neurotrofinas — proteínas que ajudam no crescimento e na sobrevivência dos neurônios — e protege o cérebro de danos. No aspecto social, praticar em grupo aumenta a motivação e o senso de apoio, o que ajuda a manter o tratamento por mais tempo. Segundo Picarelli, o exercício em grupo transforma o “não estou bem” em um sentimento de pertencimento que reduz a ruminação e a autocrítica: não é só o músculo que se fortalece, é o cérebro social.
Por que ainda não é a primeira opção clínica?
Os autores apontam para a necessidade de transformar evidências em recomendações práticas, para que médicos possam prescrever exercício com a mesma segurança com que indicam fármacos ou psicoterapia. A ideia é ampliar o arsenal terapêutico no enfrentamento da depressão e da ansiedade, sem transformar a atividade física em ritual rígido ou culpabilizante. A aposta é por uma integração cuidadosa e personalizada do exercício ao cuidado de cada paciente, levando em conta realidades de vida, trabalho e família.
Caminhos para 2026
O passo seguinte, segundo os especialistas, é traduzir as descobertas em diretrizes concretas e acessíveis. Em termos práticos, isso pode significar programas de prescrição de atividade física no âmbito de saúde ocupacional, com orientações padronizadas, mas flexíveis, que respeitem diferenças culturais, geográficas e socioeconômicas. Em termos de cultura organizacional, empresas que incentivam atividades em grupo, pausas ativas e ambientes que promovem bem-estar podem ver impactos diretos na produtividade, no absenteísmo e no clima de trabalho. A ciência, nesse cenário, não desafia a medicina tradicional, mas amplia o cuidado: o corpo que se move, muitas vezes, é o cérebro que respira melhor.
Um convite ao equilíbrio consciente
A revelação de que o movimento pode ter efeitos equivalentes aos de remédios e psicoterapia é, ao mesmo tempo, simples e revolucionária. Simples porque envolve ações cotidianas — caminhar, correr, andar de bicicleta, praticar em grupo. Revolucionária porque coloca o cuidado da mente numa arena mais humana: políticas de saúde que dialogam com a vida real, com o tempo, o espaço e as relações que moldam cada pessoa. Nesse sentido, o caminho para 2026 não é apenas evoluir na ciência, mas alinhar a prática clínica a um modelo de prosperidade consciente, onde bem-estar, trabalho e sociedade caminham juntos.
Provocaçao final
E se, ao transformar hábitos em prescrição, começarmos a medir não apenas o impacto nos sintomas, mas o efeito na qualidade de vida, na confiança em si e na capacidade de sustentar o cuidado ao longo do tempo? Que tal começarmos com um passo simples: uma caminhada em grupo semanal com um pequeno grupo de colegas ou vizinhos, com um objetivo claro e um calendário compartilhado, para sentir na prática como o corpo pode orientar a mente para uma versão mais estável, criativa e produtiva de si mesmo?
🔍 Perspectiva baseada na notícia: Exercício físico pode ser tão eficaz quanto remédio e terapia para depressão e ansiedade, revela estudo
🔗 Fonte