Na adolescência, o espelho costumava parecer inimigo. Charlotte Joy, musicista que vive da expressão através da arte, transformou a dor do Transtorno Dismórfico Corporal em um álbum conceitual que atravessa a sensação de inadequação com a força da criação.
O que é dismorfia corporal
A dismorfia não é apenas uma crítica interna comum; é uma condição em que a ansiedade relacionada à aparência invade a vida diária. Segundo Viren Swami, professor de psicologia social, trata-se de uma obsessão que, para quem a vive, pode parecer extraordinariamente grave. Entre os sinais estão sofrimento emocional intenso, muito tempo gasto em ruminação e a sensação de não conseguir controlar pensamentos sobre o corpo. O transtorno pode incluir comportamentos repetitivos, como checar o espelho com frequência ou reconfigurar detalhes físicos, até que o mundo da pessoa pareça girar em torno de uma única característica.
"O mundo inteiro da pessoa passa a girar em torno desse aspecto do corpo, e todo o resto meio que vai desaparecendo", afirma Swami.
Embora haja uma percepção de que a insatisfação corporal seja mais comum entre mulheres, Swami ressalta que não há uma divisão rígida de gênero no TDC.
Caminhos para a cura e a vida além do espelho
Charlotte começou a terapia no serviço local de saúde mental e, depois de internação em uma unidade de tratamento, mergulhou na terapia ocupacional — artes, cerâmica e, sobretudo, composição musical. "Isso me ajudou a canalizar meu perfeccionismo, tirando-o da escuridão e trazendo-o para a luz, dissipando aquela vergonha", ela compartilha. Ao receber alta, decidiu falar publicamente sobre sua trajetória, com a esperança de alcançar quem enfrenta o mesmo sofrimento.
Segundo Swami, procurar apoio de um clínico geral é o caminho inicial recomendado para quem convive com o transtorno. Caso você observe alguém próximo apresentando sinais persistentes, a paciência e a empatia são cruciais. Em vez de encerrar a conversa ou reagir com raiva, reconheça que o TDC não desaparece por si só e que, sem ajuda profissional, pode piorar.
Para Tilly Kaye, a jornada foi longa, incluindo relatos como: "Eu sentia vontade de pedir desculpa às pessoas que passavam por mim por eu ser tão feia" e o impulso de evitar espelhos em público. A busca por tratamento começou com a NHS, onde uma psicoterapeuta identificou a dismorfia; ela passou a frequentar um grupo de apoio da BDD Foundation e a trabalhar com terapeuta particular. Hoje, com mais controle sobre os pensamentos, Tilly relata ter reencontrado a alegria de viver: "A forma como eu me vejo, dependendo do dia ou do meu humor, não é como as outras pessoas me veem — elas apenas me veem como Tilly".
Implicações para 2026: redes de cuidado e ambientes que acolhem vulnerabilidade
Este relato colorido, com a delicadeza de quem transforma sofrimento em arte, oferece lições para líderes, terapeutas e equipes. Em termos práticos, apostar na empatia cotidiana, na disponibilidade de serviços de saúde mental e na criação de redes de apoio pode reduzir o estigma e ampliar o acesso a tratamento. Em ambientes organizacionais, isso se traduz em:
- espaços seguros para que quem enfrenta sofrimento mental possa falar sem medo de perder a confiança de colegas;
- programas de autocuidado e gestão de estresse que incluam exercícios de atenção plena, terapia ocupacional e atividades criativas;
- comunicação empática que reconheça o transtorno como condição de saúde mental que requer cuidado, não julgamento.
A história de Charlotte, que canalizou a dor através da música, e a de Tilly, que aprendeu a reconquistar a alegria da vida, revelam uma verdade simples: com apoio adequado, é possível reconstruir a relação consigo mesmo. E esse movimento já começa no microcosmo de cada casa, de cada escola, de cada empresa que escolhe ouvir e agir com compaixão.
Um convite ao cuidado ativo
Se as redes ao redor não oferecerem espaço seguro para vulnerabilidade, a vulnerabilidade fica silenciada e o sofrimento pode se intensificar. A ciência da neuropsicologia nos lembra que o cérebro pode reorganizar padrões de pensamento com o tempo e o treino adequado; a prática clínica mostra que a recuperação é possível com suporte contínuo, paciência e empatia. A pergunta que fica é: como você pode começar hoje a construir um ecossistema de cuidado que respalde quem luta com a própria imagem e ajude a transformar a dor em criatividade e propósito?
🔍 Perspectiva baseada na notícia: Dismorfia corporal: como deixei de odiar minha aparência e aprendi a me aceitar
🔗 https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/02/18/dismorfia-corporal-como-deixei-de-odiar minha-aparencia-e-aprendi-a-me-aceitar.ghtml