Ao observar Edineusa Matos, enfermeira que faz 'bico' como acompanhante de saúde, vemos uma imagem que dialoga com o Brasil que envelhece e ainda busca uma forma digna de cuidar. O que vemos não é apenas uma história de renda extra, mas um retrato vivo de um ecossistema que ainda precisa caminhar entre informalidade, necessidade de regulamentação e o sonho de cuidar com qualidade sem esmagar quem cuida. A população brasileira está ficando mais idosa, e as famílias, cada vez mais enxutas. A consequência prática é simples e ao mesmo tempo complexa: a demanda por cuidadores de saúde cresce justamente quando o recado das redes de apoio fica menos robusto. Plataformas como Cronoshare e GetNinja conectam clientes a auxiliares para funções diversas, desde acompanhar em consultas até auxiliar em procedimentos hospitalares e na organização de horários. A contratação, em grande parte, continua informal, com pagamentos feitos via Pix e sem contratos formais de trabalho. Nesse cenário, a renda extra pode se tornar uma transformação de vida: Girlaine Ferreira, de 56 anos, relata que cobrar um mínimo de 220 reais por acompanhamento, incluindo deslocamento, pode aumentar a renda mensal em cerca de 35%. Edineusa Matos, por sua vez, soma a função de cuidadora a uma carreira de enfermagem: com uma diária mínima de quatro horas entre 130 e 260 reais, ela chegou a afirmar que, em alguns meses, ganha mais como acompanhante do que no emprego formal, e chegou a financiar a compra de um apartamento com essa renda extra. Esses números não são apenas referências de mercado; são sinais de como a lógica de cuidado se entrelaça com a economia familiar e com a trajetória de vida de quem cuida.
O que essa pauta revela vai além da bilheteria de quem cobra por hora. O cuidado tradicional, conforme a Classificação Brasileira de Ocupações, pode, em tese, ocorrer sob carteira assinada. Contudo, o mercado é permeável a acordos informais: a pessoa acompanha, por exemplo, consultas, exames ou sessões com a ressalva de que não pode diagnosticar doenças nem prescrever tratamentos — o que, na prática, exige responsabilidade compartilhada entre contratante, trabalhador e plataformas. A regulamentação da profissão de cuidador de idosos tramita na Câmara dos Deputados, e a Política Nacional do Cuidado, sancionada no final de 2024, aponta para um reconhecimento mais amplo do cuidado como direito universal e responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, sociedade e setor privado. No entanto, especialistas ressaltam que sem ações obrigatórias, orçamento dedicado e implementação efetiva, a lei tende a permanecer no plano normativo, sem transformar as rotinas de milhões de famílias.
A história de Edineusa e Girlaine ecoa com duas tensões centrais: a necessidade de profissionalização e a urgência de manter o cuidado acessível. A profissionalização não é apenas uma questão de salário mínimo; é um movimento de qualificação, de certificação, de treinamento prático e de responsabilidade social, para que o cuidador tenha clareza sobre o que pode fazer, quais limites existem e como sinalizar riscos sem pretender diagnosticar. E aqui entra um segundo desafio: como manter a escalabilidade de serviços de cuidado na lógica de plataformas, sem cair na precarização ou na rigidez excessiva. A proposta de modelos híbridos — com uma camada formalizada de regras para quem trabalha com rotina (vínculo, registro de jornada, proteção social) e uma camada flexível para serviços eventuais — pode oferecer um caminho viável. Em termos práticos, isso significa acordos que remunerem de forma justa, com formação mínima reconhecida (cursos de cuidador de idosos com certificação), seguro e mecanismos de qualidade para usuários, além de um ecossistema que envolva serviços de apoio técnico, supervisão clínica e integração com redes de saúde públicas e privadas.
A perspectiva que emergem dessas experiências é que precisamos de uma comunicação sistêmica entre atores: trabalhadores, clientes, plataformas, gestores de saúde e legisladores. A ponte está na construção de redes de serviço que sejam transparentes, com regras claras, e que mantenham o cuidado humano no centro, mesmo quando a tecnologia facilita o encaixe de demandas com oferta. O olhar de quem investe no cuidado também precisa seguir princípios de capitalismo consciente: remuneração justa, desenvolvimento de competências, responsabilidade social e uma governança que lembre que o cuidado é um ativo social, não apenas uma mercadoria. Em 2026, esse discurso não é mais propaganda de boas intenções; é uma necessidade pragmática para evitar que a demanda cresça em terreno invisível de precarização, ou se fragmente em uma miríade de soluções informais sem proteção para quem cuida e para quem recebe o cuidado.
Nesse cenário, a lição que fica é simples e potente: pensemos modelos híbridos que protejam trabalhadores e usuários, mantenham a ética e encontrem espaço para escalar. Isso não significa abandonar a flexibilidade, mas sim institucionalizá-la de forma responsável, com diretrizes que promovam autonomia sem abandono do suporte. O desafio é grande, mas o campo é fértil: ao reconhecer o cuidado como responsabilidade compartilhada, damo-nos a chance de alinhar prosperidade, dignidade e cuidado em um ecossistema que sirva a uma sociedade cada vez mais envelhecida, sem sacrificar quem cuida nem quem é cuidado.
🔍 Perspectiva baseada na notícia: A enfermeira Edineusa Matos faz 'bico' como acompanhante de saúde
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