Em meio ao ruído crescente de dados que disputam nosso tempo, emerge uma ideia que parece saída de ficção científica: cristais de memória gravados no vidro. A pergunta que move esse imaginário tecnológico é simples e audaciosa ao mesmo tempo: é possível armazenar informação de forma estável, densa e energeticamente eficiente, sem abrir mão da prática do dia a dia digital? A resposta começa num laboratório japonês há quase três décadas, onde lasers ultracurtos de femtossegundos eram usados para escrever em vidro. Ao atravessarem o vidro tratado com essa tecnologia, os pesquisadores notaram algo estranho na dispersão da luz—a Rayleigh não obedecia mais as regras usuais.
“Foi difícil explicar”, lembra Peter Kazansky, pesquisador da Universidade de Southampton, que trabalhava com a equipe de Kyoto.
“Nós observamos a luz se dispersar de uma forma que parecia desafiar as leis da física.”
O “momento Eureka” levou à descoberta de nanoestruturas ocultas dentro do vidro de sílica, criadas por microexplosões induzidas pelo laser. Pequenos orifícios, muito menores que o fio de cabelo humano, passaram a comportar-se como redemoinhos de luz que se espalham em várias direções. Foi aí que ficou claro que a luz poderia ser impressa dentro de materiais transparentes em escalas menores que o comprimento de onda da própria luz — uma clave para densidade de dados que parece prometer o “armazenamento eterno”.
Com o tempo, Kazansky avançou a ideia para além da curiosidade de laboratório. Os cristais de memória codificam dados em cinco dimensões: a orientação e a intensidade da luz, somadas à localização de voxels — pixels tridimensionais com coordenadas x, y e z. A leitura não depende de grande energia; é necessária energia apenas para escrever. O processo de leitura, aliado a equipamentos ópticos sofisticados, decifra a informação por meio de mudanças na polarização e na intensidade da luz propagada pelas nanoestruturas.
A capacidade é impressionante. Teoricamente, um disco de vidro de cinco polegadas pode abrigar até 360 terabytes. E o material — vidro de sílica fundida — é valorizado pela durabilidade e pela estabilidade térmica. A ideia de Kazansky, que também fundou a SPhotonix em 2024, é transformar essa tecnologia numa ferramenta prática para o armazenamento de dados de larga escala. A companhia já angariou US$ 4,5 milhões em financiamento e projeta levar protótipos a centros de dados nos próximos dois anos. Hoje, a leitura fica em torno de 30 MB por segundo; a meta é chegar a 500 MB/s nos próximos três a cinco anos, um patamar ainda competitivo frente às soluções de fita magnética modernas.
A visão de Kazansky não está isenta de ceticismo. Para o professor Srinivasan Keshav, da Universidade de Cambridge, o obstáculo maior é a incompatibilidade com a infraestrutura vigente: “há enormes barreiras para adoção” se não houver integração com o que já está em operação. Além disso, o arcabouço de armazenamento de dados não fica apenas no vidro. Existe uma rivalidade interessante com o armazenamento em DNA, defendido por pesquisadores e gigantes da tecnologia, como a Microsoft.
O DNA sempre foi apresentado como uma solução extremamente densa e estável para o longo prazo. Em teoria, um grama de DNA poderia armazenar até 215 petabytes por milhares de anos. A conversão de bytes digitais em sequências de A, T, C e G é bem simples, mas as leituras e, sobretudo, a escrita ainda são gargalos caros. Enquanto o DNA promete baixa sensibilidade a temperatura e grande eficiência energética, o custo de síntese de DNA para armazenamento prático continua alto. Heinis, de Imperial College London, descreve os cristais de Kazansky como um concorrente direto do DNA, mas aponta que “sempre poderemos ler DNA” por suas aplicações médicas, além do fato de que o DNA tem caminhos de leitura mais estáveis a longo prazo.
A Microsoft tem sido uma das muitas organizações a investir no tema. Em 2016, a empresa anunciou ter armazenado 200 MB de dados em DNA, incluindo elementos simbólicos como sementes do Silo Global de Sementes de Svalbard e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em 2020, formou a Aliança de Armazenamento de Dados em DNA. Em 2026, a Microsoft publicou um avanço na revista Nature: dados armazenados em vidro de borossilicato, além do vidro tradicional de sílica fundida. O borossilicato, além de barato, é considerado durável o suficiente para manter informações por até 10 mil anos. Ainda assim, a Microsoft ressaltou que a linha de pesquisa não está comercializada ainda.
Essa busca por memória de longo prazo se cruza com o grande desafio do setor: o consumo de energia. Globalmente, centros de dados respondem por uma fração significativa da energia elétrica — cerca de 1,5% da demanda mundial — e a tendência é de crescimento. A IA generativa, em particular, intensifica a necessidade de computação de alto desempenho, que demanda grandes volumes de energia e calor. Usualmente, a maior parte dessa energia é dedicada a dados quentes, que precisam de acesso imediato; porém, estima-se que até 80% dos dados sejam frios, ou seja, podem ser acessados com atraso. O esforço por soluções de armazenamento com menor consumo energético — desde armazenamento de dados em fita até próximas gerações de memória — é parte de uma estratégia maior de “rethink” da computação.
Pesquisadores e especialistas ressaltam que silício, sílica e DNA são opções com grande atratividade da sustentabilidade, mas não devem substituir o armazenamento convencional para as cargas de trabalho da computação cotidiana ou de IA no curto prazo. Em vez disso, o debate aponta para um conjunto de abordagens que envolvem não apenas o hardware, mas também a eficiência de software e das cargas de trabalho, além de uma possível reorganização de dados.
Se olharmos com o olhar de educação e bem-estar que praticamos no SPIND, a lição é de compasso: novas memórias podem abrir caminhos para menos energia por dado preservado, mas exigem alinhamento ético, econômico e ambiental. O que queremos preservar, por quanto tempo, e com que custo humano e planetário? Em última instância, é uma convocação para alinharmos inovação com propósito, levando em conta o impacto humano, a qualidade de vida e a responsabilidade com as próximas gerações.