Em Fernando de Noronha, uma iniciativa que cruza ciência, cuidado e responsabilidade regulatória abre uma conversa que o Brasil precisa ter sobre saúde integrativa e a autonomia do paciente. No ambulatório do Hospital São Lucas, uma equipe especializada iniciou nesta terça-feira (24) um atendimento de cannabis medicinal, com término previsto para sexta-feira (27). A prioridade é acolher mães de crianças atípicas, como as que têm filhos com Transtorno do Espectro Autista (TEA); pescadores e pacientes com dores crônicas, ansiedade, depressão e distúrbios do sono também estão entre o público-alvo.
A médica Juliana Paiva integra a equipe que está na ilha. Segundo ela, após a avaliação, cada paciente recebe indicação de tratamento individualizado com óleo de cannabis medicinal. “O tratamento pode ajudar principalmente quando outros medicamentos não apresentaram resultado. No caso de crianças com autismo, há redução da ansiedade, melhora do sono e do comportamento, além de relatos de avanços no desenvolvimento”, explicou.
Juliana Paiva também destacou os benefícios para quem sofre com dores crônicas. De acordo com a médica, o tratamento ajuda a aliviar a dor com menos efeitos colaterais do que medicamentos tradicionais. Além disso, pode auxiliar em casos de ansiedade, depressão e insônia.
A ação voluntária é coordenada pela Associação Brasileira de Estudo dos Canábicos (Abecmed). A entidade também viabilizou a doação do medicamento usado no tratamento. O presidente da associação, Alexandre de Assis, afirmou que a entidade já atua em outras regiões do país. Segundo ele, a ação chegou a Fernando de Noronha por causa da dificuldade que os moradores enfrentam para ter acesso ao medicamento.
“Noronha tem cerca de 50 crianças nessa condição, o que representa aproximadamente 1% da população. Em outras localidades, a média é de 0,3%. Por isso, nós decidimos colaborar”, falou Alexandre de Assis.
Esclarecimento
A associação Bendito Medicinal também apoia a ação. A entidade atua no esclarecimento sobre o uso medicinal da cannabis, que ainda enfrenta preconceito por ser associada à maconha.
“Nós orientamos a população e tiramos dúvidas sobre o tratamento. É importante combater o preconceito e reforçar que o uso é medicinal e feito com acompanhamento médico”, afirmou a presidente da associação, Jamile Torezani.
Pacientes
A relações-públicas Rebeca Allen, presidente da Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha, procurou atendimento. Ela quer tratar a ansiedade e também buscar acompanhamento para o filho, que é autista.
“Eu e meu filho vamos fazer o tratamento. Espero que meu filho fique mais calmo e que eu tenha menos ansiedade”, disse Rebeca.
O pescador Guilherme Gomes, de 30 anos, trabalha no mar desde a adolescência. Ele relatou que sente dores frequentes e já faz tratamento com cannabis. Agora, também vai ser acompanhado pela equipe que está na ilha.
“A pesca artesanal exige esforço físico e mental. O tratamento com cannabis ajuda a aliviar as dores e melhora a disposição”, revelou. Além das dores, Guilherme usa a cannabis medicinal para tratar a depressão. “Enfrentei crises de ansiedade e percebi melhora na qualidade de vida”, falou.
Cultivo de cannabis
O projeto foi idealizado pelo advogado Ladislau Porto Neto. Segundo ele, a proposta é ajudar principalmente moradores de baixa renda. O idealizador também quer discutir a possibilidade de autorização para o cultivo de cannabis na ilha para fins medicinais.
“O solo vulcânico de Fernando de Noronha seria adequado para o cultivo. A medida poderia ajudar a reduzir o preconceito. A proposta é exclusivamente para uso medicinal, com controle e autorização legal”, explicou.
A ação é realizada em parceria com a Administração da Ilha. Os moradores interessados em receber atendimento devem entrar em contato pelo WhatsApp, no número (11) 98577-0190.
Este momento de Noronha funciona como um espelho para o Brasil: aponta caminhos e dilemas que nos convidam a repensar como oferecemos cuidado centrado no paciente, sem perder de vista a segurança, a ética e a comunicação responsável em saúde. O tema convoca reflexões sobre acesso equitativo, educação para reduzir preconceitos e o papel da regulação na prática clínica, em especial quando lidamos com terapias emergentes que desafiam hábitos consolidados e dependências históricas da indústria farmacêutica. Em 2026, o desafio é escalar experiências como esta com transparência, dados clínicos e envolvimento comunitário, para que mais pessoas possam experimentar ganhos reais sem abrir mão da responsabilidade pública e de padrões de qualidade.
🔍 Perspectiva baseada na notícia: Moradores de Fernando de Noronha recebem tratamento com cannabis medicinal
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