Em fins de fevereiro, a Associação Internacional de Alzheimer (AAIC) promoveu encontros ao redor do mundo para debater o cenário da doença com abordagens locais. No painel realizado no Uruguai, a pesquisadora argentina Lucía Crivelli, da Fundação para a Luta contra as Enfermidades Neurológicas da Infância (FLENI), apresentou uma constatação que ocupa o centro do debate: na América Latina, cerca de 56% dos casos de Alzheimer poderiam ser evitados, frente a 45% no restante do mundo. O choque não é apenas numérico; ele aponta para uma janela de oportunidade em que hábitos, educação e redes de apoio podem mudar trajetórias de vida.
Mas por que esse diferencial? Crivelli destaca que o foco em prevenção ainda é insuficiente, e que nosso estilo de vida atua como peça-chave neste tabuleiro. Seu mantra é simples e poderoso: praticar atividade física, não fumar, manter o peso sob controle, gerenciar colesterol e glicose, além de moderar o consumo de álcool. Outros fatores protetores aparecem como peças de proteção: escolaridade, redução da poluição, prevenção da depressão, de traumas cranianos e da perda de audição e visão, sempre com o objetivo de manter conexões sociais que ofereçam suporte.
A organização regional não pretende tratar a América Latina como um bloco homogêneo. Ainda assim, há um consenso de que ações protetoras contra a demência geram impactos mensuráveis ao longo da vida, e há dados consolidados que ajudam a entender onde agir.
Resumo dos impactos de ações protetoras ao longo da vida:
- Infância, juventude e início da vida adulta: investir em escolaridade (mais anos de estudo) pode reduzir o risco em cerca de 11%.
- Meia-idade: controlar a hipertensão reduz o risco em aproximadamente 9%; evitar a obesidade contribui com 8%.
- Idade madura: evitar a perda de audição diminui o risco em 8%; tratar a depressão reduz em 7%; deixar de fumar, 6%; combater o sedentarismo, 5%; e controlar o diabetes, 3%.
Há variações entre países. No México, Crivelli reforça que o foco deveria estar em hipertensão, obesidade, depressão e isolamento social. No Brasil, as ações protetoras passam pela escolaridade, hipertensão, perda auditiva e obesidade. A estimativa é de que o Brasil tenha perto de 2 milhões de pessoas com algum tipo de demência, enquanto, na América Latina, o total chega a 10 milhões — números que devem triplicar até 2050.
Uma linha de evidência que alimenta a esperança é o estudo FINGER (Finnish Geriatric Intervention Study to Prevent Cognitive Impairment and Disability). Publicado originalmente em 2015, o FINGER mostrou que uma intervenção multidomínio — atuando simultaneamente em várias frentes — pode prevenir ou retardar o declínio cognitivo em idosos com risco de demência.
O que o estudo monitorou? Cinco áreas interligadas para manter a saúde e preservar a cognição:
- Nutrição: dieta baseada no padrão mediterrâneo/nórdico, rica em vegetais, frutas, grãos integrais, peixes e uso de óleo de canola/oliva. Adaptações locais são comuns: no México, o azeite é caro, então a alternativa passou a ser o abacate; na Bolívia, a dieta não inclui peixe.
- Exercício físico: programa que combina treino de força, exercícios aeróbicos e equilíbrio.
- Treinamento cognitivo: atividades para estimular memória, velocidade de processamento e funções executivas.
- Monitoramento metabólico e vascular: controle rigoroso de pressão arterial, glicose, colesterol e IMC.
- Atividade social: combater o isolamento como fator terapêutico.
Os resultados da Finlândia foram expressivos: quem participou do grupo de intervenção mostrou uma melhoria de 25% na pontuação cognitiva global. O sucesso levou à expansão global do modelo, hoje conhecido como World-Wide FINGERS, que adapta a metodologia para diferentes culturas e países. Na região LatAm, o projeto LatAm-FINGERS já englobaria Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, México, Peru e Uruguai.
A notícia aponta para uma saída plausível diante de um cenário desafiador: a combinação de ações preventivas em múltiplos domínios, associadas a políticas públicas consistentes e redes sociais de apoio, pode reduzir significativamente o risco de demência na população. Esse é um convite ao alinhamento entre saúde, educação, urbanismo, nutrição e bem-estar — um ecossistema no qual cada intervenção tem o potencial de ampliar a qualidade de vida das pessoas, hoje e no futuro.
A leitura de Crivelli também nos lembra que a América Latina não pode ser entendida apenas pelo peso dos números, mas pela diversidade de trajetórias, culturas e soluções locais que podem ser compartilhadas, adaptadas e escaladas. A ciência aponta o caminho; é hora de traduzir esse conhecimento em políticas públicas, programas comunitários e práticas diárias que tornem a prevenção uma prática comum, acessível e prazerosa.
Ao atravessar esse mapa de ações, vemos um convite claro para o ecossistema do bem-estar: cultivar estilos de vida conectados, educação contínua, saúde mental valorizada e redes de apoio que deem sustentação social. Essa é a direção onde o Spind quer caminhar com você — para que cada pessoa possa experimentar menos ruídos e mais equilíbrio, significado e prosperidade em sua vida e em sua comunidade.