Ao observar a queda de 25% nos atendimentos relacionados ao uso abusivo de álcool na rede pública de saúde mental de São Paulo, mergulhamos em uma leitura que não se limita aos números. O que eles nos contam sobre hábitos, informação, estigma e acesso a cuidados em um tempo de rápidas mudanças? Dados da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) mostram que os Caps AD da capital registraram 7.900 atendimentos em 2023, 6.626 em 2024 e 5.907 em 2025. A queda, repetida em outras regiões do Brasil e em tendências internacionais, coincide com um movimento mais amplo de conscientização sobre os impactos do álcool no organismo e de busca por hábitos mais saudáveis. A leitura cuidadosa envolve o que está por trás do recuo: será que menos pedidos de auxílio indicam menos problemas ou uma mudança de forma de pedir ajuda?
A pesquisadora Mariana Thibes, em entrevista ao podcast O Assunto, chama a atenção para mudanças de comportamento entre as gerações: os jovens parecem beber menos, motivados pela maior disponibilidade de informação sobre riscos à saúde, pela preocupação com a reputação nas redes sociais e pela rejeição à embriaguez, cada vez mais associada à vulnerabilidade. Esse movimento não é apenas cultural: ele dialoga com a prática clínica e com políticas públicas que tentam reduzir danos sem estigmatizar quem procura tratamento. A capital paulista abriga 35 Caps AD, que oferecem tratamento gratuito para álcool e drogas, com atendimento sem necessidade de agendamento. O caminho de busca pela saúde é complementar: o Alcoólicos Anônimos (AA) também atua como uma rede de apoio gratuito, com encontros presenciais e online, baseados em um programa de 12 passos.
A tecnologia aparece como aliada da prevenção. O ModeraSP, lançado em 2024, acumula mais de 100 mil usuários cadastrados e mais de 35 mil triagens com base em diretrizes da OMS. A ferramenta, disponível no aplicativo e-saudeSP, classifica o nível de risco do consumo e orienta o usuário com uma assistente virtual chamada Susana. Em casos mais graves, já encaminhou 1.872 pessoas a Unidades Básicas de Saúde desde 2024. Esse tipo de recurso reforça um princípio central do SUS: a porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (Raps é pela Atenção Básica, com suporte da SES), articulando educação, triagem e encaminhamento para a atenção especializada.
Sob o prisma da neurociência e da saúde mental, vale destacar o que as formas de consumo podem provocar no corpo. O cirurgião gastrointestinal Lucas Nacif aponta que o álcool causa lesões em vasos sanguíneos, danos cerebrais e problemas gastrointestinais. Mesmo o consumo “social” pode afetar sistemas neurológico, cardiovascular e digestivo. A abstenção costuma produzir sinais de recuperação rápida, incluindo melhoria do sono, do desempenho físico e do equilíbrio emocional. Tal observação sustenta a ideia de que reduzir ou moderar o consumo pode ter impactos positivos mensuráveis na qualidade de vida, ainda que a resposta varie de pessoa para pessoa.
Os sinais de dependência vão além da quantidade bebida: dificuldade em parar, abstinência, conflitos familiares ou no trabalho e isolamento social indicam a necessidade de apoio especializado. A orientação, portanto, não é apenas interromper o álcool, mas reconfigurar redes de cuidado que incluam CAPS AD, serviços de saúde primários e redes de apoio como AA, fortalecidas pela disponibilidade de plataformas digitais que ajudam a triagem, o encaminhamento e o acompanhamento.
O panorama de 2026 aponta convivência entre políticas públicas, educação em saúde e inovação tecnológica como um caminho de prosperidade consciente, que reconhece a dimensão humana do cuidado. A queda nos atendimentos pode sinalizar uma mudança de comportamento, mas também inspirações para ampliar o alcance de prevenção, reduzir danos e aproximar as pessoas de serviços de saúde com menos estigmas. A conversa entre ciência, tecnologia, saúde pública e vida cotidiana parece, cada vez mais, essencial para que pessoas, organizações e comunidades encontrem caminhos mais saudáveis, produtivos e dignos.
🔍 Perspectiva baseada na notícia: Abuso de álcool: atendimentos caem 25% em São Paulo em três anos
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